Fragmentos

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“sabes?
há dias, horas, em que a ausência me atinge em cheio na fronte como uma
pedra profunda” Xilre

Sinto o mesmo. Há horas em que sinto a ausência dos meus, que estão tão longe, e a ausência de ti, que estás tão fragmentado. São ausências diferentes e, como tal, atingem-me de forma diferente. O trajecto da dor que produzem é, no entanto, semelhante – começa na fronte e depressa se propaga até atingir estrondosamente esta massa de células, vasos e artérias a que chamamos Coração.

 

 

It is what it is

“É preciso ter sorte e encontrar a pessoa certa no lugar certo, no momento certo”. Várias vezes me disseram isto e várias vezes reagi com cepticismo. Mas hoje, hoje penso diferente. Cada vez me convenço mais que há pessoas que vamos conhecendo que, por mais que nos afectem, simplesmente não são supostas ficarem por muito tempo. Surgem para nos mostrarem ou ensinarem algo, mas não tem necessariamente que ficar. Eu acredito que quando um sente, o outro também sente, ou faz de conta que sente. E é isto que me desconcerta, que me tira do eixo, que me faz pensar que este mundo dá voltas desnecessárias. Do sentir ao querer fazer algo com o que se sente vai uma enorme distância. E é crucial que se entenda que as coisas são mesmo assim, que nada é “preto ou branco”, que nada tem que vir até nós por uma razão em particular e que não devemos deixar que os actos dos outros tenham um efeito profundo em nós. O x costumava dizer que “As coisas são como são”, e eu sempre adorei esta expressão. Eu gosto de dizê-la em inglês – It is what it is. Tem uma conotação de derrota, como que a querer dizer num encolher de ombros “isto não devia ser assim mas eu não posso fazer nada”. Esta expressão é muito sábia… Mas mais que dizê-la, há que levá-la à letra. Eu ainda nem sempre o consigo – It is what it is. 

Hoje emocionei-me varias vezes durante o dia. Acontece-me sempre quando penso na minha familia que esta tao longe. Na minha Tia C. que esta’ a envelhecer tao rapidamente, na minha irma que esta’ a comecar a estabelecer a sua Familia, no meu Pai que sei que tem sempre dores nas costas, na minha Mae que, apesar de tudo, tem todas as manhas uma palavra de alegria para me dar.

Emociono-me porque penso neles e penso na efemeridade da Vida e na distancia que nos separa. Emociono-me porque sei que, inevitavelmente, todos os dias os perco um bocadinho…

 

O medo

É castrador, limitante. Aprisiona-nos e tolda-nos a razão. Deixa-nos frágeis, sem saber muito bem o que fazer. O medo do escuro é compreensível – a falta de luz leva-nos para recantos estranhos, onde a aparente ausência de matéria faz elevar os maiores monstros. Mas e o medo de falhar? Porquê o medo de falhar? Porque temer falhar se somos apenas humanos, feitos de carne e osso e um coração descompassado que faz o que quer? Houvesse uma máquina que o erradicasse e eu seria a primeira a comprá-la. Isso, ou assumir de uma vez por todas que falhar é perfeitamente normal e que, desde que façamos o nosso melhor, mais não nos pode ser exigido. Muitas vezes queremos a perfeição – queremos fazer tudo bem à primeira, ter tudo à primeira tentativa. Queremos a mesma autoestima e aparente “confiança” que vemos nos outros. Mas e os outros – são mesmo assim ou são tal e qual como nós? Tenho cá para mim que no fundo somos todos iguais, mas uns são melhores a escondê-lo que outros.

L O V E 

“Love is daunting. It’s elusive and undefinable, wonderful but sinister, capable of starting wars and ending them. It is arguably the thing we, as humans, simultaneously crave and fear the most. It is known and unknown and enveloping. Some people spend a lifetime searching for it, some evade it.”

[Muna released their debute album entitled about u. The entire album is great, deeply emotional and a great trip through the many faces of Love. It’s hard to stop listening to it…]

Inquietudes 

No filme Lion, um casal Autraliano adopta duas criancas Indianas, mesmo podendo ter os seus proprios filhos. A explicacao e’ simples: ja’ existe demasiada gente neste planeta – porque nao dar uma oportunidade a quem nao tem como escapar da pobreza e do abandono? E, por momentos, eu parei naquela cena. Havera’ atitude mais altruista e nobre que esta?

Muitas vezes me pergunto – como sera’ viver com muito pouco, ou mesmo viver sem nada? Como sera’ ser crianca, nao ter uma Mae e um Pai que nos guiem e mesmo assim ter que viver? Como sera’ nao ter uma casa e nessa casa um quarto que e’ nosso, por mais humilde e simples que seja? E nesta sequencia de duvidas, tambem me pergunto muito frequentemente qual sera’ o meu papel no Mundo para ter um real impacto no mesmo… Eu, que faco um esforco herculeo para ser racional e me considero muito ‘career-driven’, vivo neste dilema de saber que a carreira e’ importante, mas nao o suficiente para me realizar completamente como ser humano… Como e’ que eu posso gerir isto? Enquanto nao tenho uma resposta certa para todas estas perguntas, vou solidificando a certeza que orientar ou adoptar uma crianca sem familia, dar-lhe um espaco fisico e emocional, todo o meu Amor e uma boa educacao seria, provavelmente, aquilo que me preencheria mais enquanto ser humano. Havera’ algo mais gratificante que chegar ao fim de uma vida e saber que o que fizemos tornou a vida de alguem irremediavelmente melhor? Alguem que, de outro modo, estaria eventualmente ‘a deriva? Obviamente que ha’ outros modos de atingir o mesmo ou semelhante, mas esta em particular sempre foi uma ideia, vai-se tornando uma vontade e um sonho. Pode ser que um dia tudo se conjugue e vontade e sonho se concretizem… Ha’ demasiada gente neste mundo para so’ pensarmos em nos e nos que connosco partilham o sangue…

 

 

 

 

 

 

Diz-me

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(@Mission Disctrict, San Francisco, Novembro 2016)

“Por mais Mundo que corra, por mais Mundo que sinta, por mais Gente que olhe,  es tu que eu vejo em todos os sitios por onde vagueio. E’ como uma corrente fortissima que me arrasta para tras cada vez que eu quero seguir em frente. E’ como um machado cravado que nao ha modo de sair do meu peito. Por mais Mundo que corra, e’ sempre a ti que eu quero, e’ sempre por ti que eu procuro. Es sempre tu que eu vejo fragmentado em mil cores”.

1:25AM. Os meus dias comecam a ser muito longos de novo… Comeco a ter menos tempo para chegar a casa e nao fazer nada. Menos tempo para pensar mais em mim e menos na carreira ou nos outros. Estou a ser eu  – a viver em constante luta pelo equilibrio, pela serenidade, por alguma paz interior. Por vezes julgo nao ser capaz de viver de outro modo – ando sempre com o ‘coracao nas maos’ – ora porque as coisas nao correm depressa como quero, ora porque os Meus me preocupam, ora porque sonhei com quem sonhei. E esse sonho e’ sempre um alerta – acontece quando me sinto sob pressao, quando o que me define verdadeiramente esta mais despido. Continuo a surpreender-me com a durabilidade dos sentimentos, dos meus sentimentos, com a previsibilidade das minhas fraquezas. E depois ha as coincidencias desta vida – eu, que nunca fui muito crente em teorias de conspiracao do universo, dou por mim a constatar que quando uma peca de um puzzle ha muito comecado se mexe, a outra mexe-se logo a seguir. O que vale e’ que eu ja sou muito boa a refazer o puzzle. E a arruma-lo na gaveta.

Dos últimos tempos

Nos últimos tempos a vida tomou conta de mim, foi acontecendo a um ritmo devastador e eu só tive que seguir a corrente…  Avencei nas direções que quis, sem medir muito bem consequências. Entrei numa rua sem fim e fui fechando portas sem deixar espaço para retrocessos. As portas que fechei não as quero abrir mais, mas estão lá, e quero sempre lembrar-me delas para saber por onde passei… Entrei por um caminho que testou (e vai continuar a testar) a minha resiliência, a minha capacidade de adaptação, a minha força. Andei no limite várias vezes – no limite da angústia, no limite da tristeza, no limite da adrenalina, no limite do cansaço, no limite da felicidade… Foram dias em que passar de “muito feliz” a “muito triste” foi tarefa muito bem conseguida. Estou onde sempre quis estar, rodeada de estímulos que sempre quis receber, em contacto com pessoas que sempre admirei e que agora admiro ainda mais. Cruzei oceanos e vim ver o que sempre quis ver. Está a valer a pena? Está! É tudo bom? Obviamente que não. Há um preço a pagar quando se trilham estes caminhos – os estranhos do metro passaram a ser as caras mais familiares, a saudade dos Meus uma constante e o silêncio o meu maior conselheiro. Mas tudo tem um tempo para acontecer na vida, e agora começa a ser tempo de o silêncio dar algum espaço a novos sons –  sons de novas histórias, de novos amores e aconchegos, de novos sonhos, de novas cores…

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San Francisco, Market Street, March 2016

Perspective

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de Young Museum Cafe, Golden Gate Park, March 2016

Março

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O meu Março começou com um sonho sobre a minha grande expectativa para este mês… Sonhei com o pior cenário, o que apenas reflecte as minhas ansiedades. Durante o dia li algures “stop worrying about what you can’t control”. E esta é a minha frase chave para este mês. Conto também com o sol, que começa finalmente por estes dias a romper o ceu de Berkeley…